Não dá para ficar indiferente ao trabalho de Alessandra Cestac. Afinal, ela interfere no espaço urbano com seu próprio corpo, nu, dando novos significados ao concreto da cidade. Para a artista, a nudez é uma maneira de explorar seu corpo e sua sexualidade, além de se apropriar do local onde vive. Nas suas intervenções, corpo feminino e exposição pública travam diálogos incessantes, sejam políticos ou poéticos.
Sua relação com esse mundo começou em casa. A convivência com o pai artista plástico, a mãe estilista e a irmã diretora de teatro deram a Alessandra a certeza de que queria explorar mundos e dizer a que veio através da Arte. A única dúvida era: o balé e a fotografia? No fim, optou pela fotografia, mas explora seu corpo em contorções e recortes, como uma bailarina estática.
Ficou curioso com o trabalho da menina? Veja o vídeo abaixo, em que a artista espalha lambe-lambes pela cidade e fala um pouco mais sobre inspirações e sua relação com o espaço urbano:
Regina Parra já flertou com mais de uma linguagem artística. Começou nos palcos – ECA (USP) e no CPT de Antunes Filho – que foi quem abriu caminho para a ideia de um ator completo, capaz de discutir filosofia, dança, cinema e artes plásticas. Seu olhar para a pintura partiu daí. Da experiência no CPT, a paulistana voou para o Rio, onde passou um tempo estudando artes visuais na Escola do Parque Lage.
Paris foi a próxima parada, na École des Beaux Arts, e desde então a moça não parou. Artes Plásticas na FAAP e agora mestrado em Artes Visuais na Santa Marcelina fazem parte da sua constante formação.
Tudo isso serviu para compreender melhor os estilos, as técnicas, aprender mais sobre as artes contemporâneas e até mergulhar na abstração da teoria. Mesmo assim, a noção de arte integradora, lição do primeiro mestre, Antunes Filho, é um conceito que sempre norteou seu trabalho.
No seu mais recente trabalho, Regina levou para a tela as imagens nebulosas das câmeras de segurança em locais públicos. Refletindo sobre seu trabalho, a pintora conclui que ele carrega uma “atmosfera instável. Como se tudo ficasse permanentemente por acontecer”.
O convite para participar do Red Bull House of Art foi muito bem recebido. Afinal, “a possibilidade de entrar em contato com novos interlocutores e novos universos é precioso para um artista, que tem uma rotina de trabalho solitária”.
Para conferir um pouco mais do trabalho de Regina, clique aqui.
El Bocho é um dos nomes mais conhecidos das ruas de Berlim. Nome, veja bem, pois o artista evita mostrar o rosto. Mas se ninguém sabe ao certo quem é esse alemão, muitos conhecem seu trabalho. Com uma assinatura visual muito característica, na combinação de cores e traços, destacam-se trabalhos em escalas impressionantes. Em julho de 2009, por exemplo, completou a maior obra em “tape-art” já realizada no mundo, ocupando 1100m² e usando 15 mil metros de fita colorida.
O convite para o Brasil veio de uma ligação. E a resposta foi um sonoro sim. Para o artista, as imagens do País passavam por “caipirinha, futebol, essas coisas”. A realidade que mais impressionou, no entanto, foi a do dia-a-dia das ruas do centro. Meninos cheirando cola, pessoas sem qualquer perspectiva. Foi a vizinhança da casa que capturou o olhar do alemão.
A primeira exposição, que já está na galeria da House, trouxe os elementos da street art e o primeiro resultado do choque de mundos – El Bocho criou novas obras exclusivamente para o evento, dispensando o que havia trazido.
Para a segunda exposição, uma certeza apenas: algo cuja inspiração venha diretamente das ruas, que fale a linguagem delas. El Bocho termina explicando: “Ao colocar minhas impressões em lances e situações totalmente cotidianas que acabo criando outra história”.
Desde a inauguração, o House recebe todo tipo de pessoa. E ver a maneira como reagem às obras com as quais mais se identificam é uma exposição a parte. Como esse dois casos aqui, que rolaram no mesmo lugar – a Galeria I, onde está o trabalho Stretch do Rui Gato, um artista que usa som como instrumento de trabalho.
O primeiro caso envolve um casal de visitantes, interessados e interativos com toda a exposição, até chegarem à obra do Rui. Ali, se acomodaram juntos no colchão, inicialmente numa espécie de posição de lótus e, abraçados de corpo inteiro, começaram a meditar. Foram mudando de posição, em total sintonia o som criado pelo artista:
foto por Ola Persson
Pouco depois, entrou um rapaz bem interessado por várias das obras: perguntou, olhou, refletiu, discutiu. Quando chegou à Galeria I, ficou. Voltei algumas vezes, para me assegurar de que ainda estava ali. Sentou no colchão, onde ficou tranquilamente com os olhos fechados. Saiu e entrou na Galeria II, para ver a instalação do Rodrigo Garcia Dutra. Então voltou para perguntar: “Posso entrar ali [Galeria I] de novo?”
foto por Ola Persson
Por coincidência, um tempinho antes eu havia perguntado ao Rui como ele se sentia ao ver a maneira como as pessoas reagem ao seu trabalho. A resposta foi bem direta e sem falsa modéstia. Disse que realmente tem noção da vibração que sua obra transmite.
E isso é uma coisa que agora dá pra ver, é praticamente palpável.
*Gabrielle Von Koss, uma das monitoras da exposição e aluna de design gráfico da FAAP e acredita que “Sometimes inspiration comes from crazy places”
Na quarta-feira aconteceu a festa de inauguração da primeira exposição aqui no Red Bull House of Art. E a primeira intervenção também. Um pixador misturou-se aos convidados, passeou por entre as obras e, chegando na última sala da galeria onde está o trabalho do sul-africano Zander Blom, escreveu frases de efeito nas paredes e até mesmo “complementou” a instalação com sua assinatura. Detalhe: ele usou pincéis e tintas do próprio artista, que estavam espalhados pela sala. “Ame seu amor” e “Odeie seu ódio” foram algumas frases que se misturaram àquela obra, também tipográfica, do Zander.
O artista resolveu incorporar ao seu trabalho as referências do pixador, que acabou sendo o 11º participante do projeto por uma noite. Ele acha que, se a pessoa foi tocada a ponto de vandalizar, alguma mudança positiva ocorreu. E bem rápido, diga-se de passagem.