Ontem os meninos do Instituto Criar estiveram aqui, conhecendo a casa e os artistas. Visitas assim são sempre inspiradoras, principalmente pros meninos, que foram desafiados a contar eles mesmos, em vídeo, foto e texto, a visita.
Encontrei El Bocho “fazendo arte” no quintalzinho. Simples, mas genial. Tratava-se de uma pequena história de amor. Peguei a arte em processo, enquanto ele soprava delicadamente a gota de tinta que escorria pela parede, ao encontro da outra. Ficamos observando a gotinha traçar sua rota pela parede texturizada, quando de repente desviou-se. El Bocho falou: “Pois é, o amor é difícil”.
Achei uma analogia linda. E me peguei desenvolvendo o assunto do amor no trabalho do Bocho. Lá, sempre vemos algo de decepção. Não quero contestar, contrariar, nem pedir justificativas para o trabalho dele, que acho muito bom. Mas quis achar soluções pra desilusão.
E, nessa história de pensar no trabalho dele e decepção, acabei me voltando para o amor romântico apenas. Me vi concordando o amor não é fácil. Até que resolvi ampliar um pouco a palavra e seus significados… Lembrei-me de que, na realidade, temos muitos tipos de amor, como aqueles menos dramáticos e mais relaxados – porque trazem conforto.
Desse pensamento todo, saiu a minha “releitura” da obra de Bocho.
Zander é um artista sul-africano. Para ele, essa relação entre local e global na arte é tema de constante discussão – e criação. Ele trabalha fundamentalmente com instalações, cujas matérias-primas podem ir dos clássicos papel e tinta a instrumentos musicais.
Sua casa serve de ateliê, laboratório e galeria. E o resultado do seu trabalho é único, pois o processo criativo do artista consiste em criar e recriar cada trabalho, registrando as etapas em fotografia.
Mas, ao contrário do que todos podem pensar, o final de seu trabalho não é uma instalação – por mais maluco que pareça. É a documentação de tudo, como em Travels of Bad, livro que traz uma série de fotos de diferentes instalações feitas no mesmo espaço. No livro, Zander essencialmente critica a maneira que as culturas exóticas foram apropriadas pelo sistema de artes visuais europeus (ditos de vanguarda) a partir do século XIX.
Na primeira exposição no House of Art, muito pelo tempo, Zander mudou sua estrutura normal de trabalho e criou uma instalação “real”. No espaço, papéis que continham os pensamentos que passaram por sua cabeça na chegada a São Paulo. Além disso, havia na sala um discman com um CD de sua autoria e, num sofá ao canto, liberou espaço para o público curtir o clima do “pingue-pongue do abismo’’.
Para a segunda exposição, a documentação de todas as instalações criadas durante a estadia no House e mais um passeio pelo “espaço original” do ateliê. Vale muito conferir.
Gabriela é uma das videoartists mais criativas da Argentina. Mas hoje seu trabalho já ganhou o mundo.
Depois de estudar cinema em lugares tão diferentes como Buenos Aires, Santiago, Santiago de Compostella e Paris, voltou aos pampas e agora é curadora de Arte Vídeo e Arte Digital para o governo da Província de Buenos Aires, dá aula em faculdades e produz muito.
Gabriela já ganhou vários prêmios e trouxe para a primeira exposição do House um diálogo político com seu país natal. Na obra, imagens de TV mostrando resultados da onda de saques que ocorreu na Argentina com a crise econômica. Como roubos a lojas cresceram, os comerciantes colocaram alimentos nas ruas para as pessoas pegarem sem depredar os estabelecimentos.
Essa cena se mescla a outras duas, do mesmo período. E todos os vídeos são lentos, extremamente lentos. Muita gente que visitou a exposição teve a mesma impressão: quase angustiantes. Nas palavras da artista, a obra condensa as imagens de um projeto de reconstrução falido.
Para a segunda exposição, Gabriela traz vídeos gravados no próprio hotel, visões do deslocamento e do amor. Mas por enquanto é só isso que podemos dizer. Se quiser saber que cenas são essas, só aparecendo aqui no House… A partir de sábado.
Ah, de uma passada no site da Gabriela também. É só clicar aqui.
De pequeno, Rui Gato sonhava em ser cientista maluco. Na hora de escolher o que estudar, acabou indo pra arquitetura, pois achava que ali poderia criar bons mixes entre tecnologia e arte. No entanto, o universo sonoro foi pouco a pouco suplantando o das formas, e o português se viu fisgado por completo pelo mundo dos sons.
Arte temporal é o que ele faz, na definição do próprio moço. E, no dia-a-dia, essa arte flerta tanto com a publicidade quanto com os espaços de galeria. Segundo ele, a principal diferença entre os dois tipos de trabalho é o tempo.
Na publicidade, o tempo é curto para a criação, enquanto no trabalho artístico, o timeframe é bem mais estendido, o que possibilita mais desenvolvimento de conceito e experimentação.
Para a primeira exposição, Rui trouxe uma obra chamada Stretch que consiste numa trilha sonora espacializada em sistema surround, totalmente fabricada a partir da gravação da última nota de uma corda de piano, antes de quebrar por excesso de tensão.
Na segunda exposição, mais novidades. Uma pequena pista? Brasil e chuva.
Para mergulhar nos delírios sonoros de Rui, clique aqui.
Claudio Bueno é um artista difícil de definir. Usar a palavra multimídia acaba funcionando, do jeito mais fácil. Mas ele vai além. Está preocupado com as questões de espaço e mobilidade. E não só com isso. Arte e Tecnologia, e principalmente como as duas se relacionam, estão no cerne de sua obra. Por isso, desde que chegou à casa, sua vida navega em um misto de conceito e traquitanas. Afinal, seus trabalhos atuam principalmente em torno da arte em mídias móveis, locativas, net art e interfaces físicas, eletrônicas e digitais.
Nesse campo incipiente das artes, é preciso fazer acontecer. Além das produções elaboradas, Cláudio estuda. Agora está fazendo mestrado em artes visuais na ECA-USP.
E a vida vai trazendo o resto. Depois de uma residência de três meses no LabMIS, caiu em outra: o House of Art. Para a primeira exposição da casa, trouxe uma visão de Big Brother que dialoga com seu ateliê, seu próprio trabalho. Colocou o processo de produção como obra. A traquitana mudava o canal da tevê no ateliê do artista por meio de uma ligação de celular.
Para a segunda exposição, vai trabalhar conceitos como tensão, mobilidade, centro, espaço, som. Quer um pequeno spoiler? Traga um capacete.
Se ficou curioso com o trabalho desse Professor Pardal das artes plásticas, clique aqui.
Os curadores da exposição, Lucas Bambozzi e Maria Montero, fizeram uma visita guiada para o povo que perdeu a primeira exposição. Confira a primeira parte do tour aí embaixo (a parte dois sobe na segunda-feira).
Sábado agora vai ter uma palestra imperdível aqui no House. A superconceituada Giselle Beiguelman fala de arte além de telas e paredes. Quer saber mais? Confira uma minibio da palestrante, com a entrevistinha que a gente preparou.
Quem é?
Giselle Beiguelman é artista e pesquisadora. Como artista, tornou-se expoente do Brasil em arte digital, ultrapassando as barreiras de local e global e conquistando reconhecimento também fora da terrinha. Sua pesquisa se debruça sobre temas como cibercultura, arte digital, internet, mobilidade e design de interface. Como pesquisadora, foi pelo viés da Semiótica e hoje dá aulas na pós em Comunicação na PUC-SP.
Do que se trata?
1. Você pode dar um “teaser” da palestra de sábado aqui no House?
A palestra vai apresentar projetos que se relacionam criticamente com o circuito de arte, seja propondo espaços alternativos de ação, seja reinventando os usos convencionais das mídias e plataformas.
2. O que você achou da proposta do House of Art, uma experiência de residência multiplataforma em São Paulo?
Acho que é uma interessante forma de pensar essa equação que me interessa tanto: a passagem do contrato ao contato.
3. Aqui temos os mais diferentes tipos de artistas, os que trabalham com suportes mais tradicionais e também com os menos tradicionais. Brincando de prever o futuro, você acredita que os artistas que vivem a experiência digital mais de perto, justamente por vivenciarem as “redes de conhecimento”, são mais permeáveis à troca direta de influências e propostas de co-criação?
Sinceramente, hoje, não há como estar fora das redes. A grande questão não é ser artista digital ou não, mas sim como transformar a condição de emergência das redes – entendendo aí redes com a situação em que a relação entre elementos variados se conjugam – de forma a propor resultados imprevistos em discurso crítico e agenciamento criativo.
4. Como você acha que a arte “virtual” converge com a “real” hoje?
A virtualidade é uma potência do real, ou seja, é uma de suas possibilidades em aberto. Nesse sentido toda arte é virtual.
5. Você é professora de Semiótica na PUC. Como a vida acadêmica – e sua abstração conceitual – se relaciona com o fazer artístico?
Não consigo separar teoria da prática. Considero que arte é uma forma de pensamento. Nesse sentido, a universidade não é um espaço teórico, mas um espaço de pensar que tem a vantagem de permitir trocas com meus pares e receber os inputs dos alunos.